A Mulher do Cacilheiro
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📜 Lyrics
Passa o passe pelo torniquete
Espera que o portão abra assim que a hora chegue
Para que o barco saia, ainda é de madrugada
O ar frio corta-lhe a cara e no cais os sons metálicos
são a banda sonora
Um grito de gaivota, um puto chora com sono
Enquant'a mãe tenta calá-lo c'um biberão de leite morno
E ela lembra-se dos filhos que ficaram sós em casa
e dos filhos da patroa p'ra cuidar na outra margem
Já se vê Lisboa ao fundo, que amanhece sonolenta
O motor do barco reza numa lenga-lenga lenta
Come bolacha Maria ali sentada entre as mulheres
e na revista Maria fica a par dos fait-divers
Mão gretada da líxivia,
pele negra, cabelo curto,
saudade de Cabo Verde,
vontade de um mundo justo
Porque é sempre mais difícil
pr'a ela que tem um útero
escolher a solidão
entr'um bêbado e um adúltero.
Entre o pó e a sanita
vai limpar também as lágrimas
Vai rezar a Fátima p'rá filha não estar grávida
(Avé Maria cheia de graça,
O senhor é convosco,
Bendita sois vós entre as mulheres)
Este balanço do barco lembra o mar de Santiago
e ao largo do Barreiro quase vê a Ilha de Maio
Quase sente o mesmo cheiro e vai crescendo o seu desejo
de seguir no cacilheiro a eito até Pedra Badejo
Vê a ponte Salazar ali ao lado esquerdo,
ou 25 de Abril como agora é bom dizer
E percebe que mesmo que façam pontes sobre o rio,
ele é demasiado grande para que consigam unir-nos.
E ali no meio do Tejo, debaixo do céu azul,
deu conta que até Cristo virou as costas ao Sul.
Ali no meio das mulheres do barco da madrugada
senta a fadiga da lida, da faxina e da faina pesada
sofre da dupla jornada p'ra pôr comida na mesa
com força de matriarca que arca com a despesa
E entre toda aquela gente, ela é só mais uma preta
só mais uma imigrante empregada da limpeza
só mais uma que de longe vê a imponência imperial
do tal Terreiro do Paço da Lisboa capital
Mais uma que à chegada vai dispersar da manada
Enquanto a cidade acorda já elas estão na batalha
há muito tempo porque o metro comboio autocarro
podem-nos faltar a gente mas não a gente ao trabalho
São os outros cacilheiros, outras pontes do povo
porque a grande sobre o rio
mesmo se o Estado é Novo
tem nome de'um grande herói
do história colonial
e ela é mais uma heroína
que não interessa a Portugal
Em comum só este barco, o mesmo rio, o mesmo mar
e a mesma fé qu'esta vida foi feita p'ra navegar.
Em comum só este barco, o mesmo rio, o mesmo mar
e a mesma fé qu'esta vida foi feita p'ra navegar.
Navegar é preciso, viver não é preciso
(O barco, meu coração não aguenta tanta tormenta)
Espera que o portão abra assim que a hora chegue
Para que o barco saia, ainda é de madrugada
O ar frio corta-lhe a cara e no cais os sons metálicos
são a banda sonora
Um grito de gaivota, um puto chora com sono
Enquant'a mãe tenta calá-lo c'um biberão de leite morno
E ela lembra-se dos filhos que ficaram sós em casa
e dos filhos da patroa p'ra cuidar na outra margem
Já se vê Lisboa ao fundo, que amanhece sonolenta
O motor do barco reza numa lenga-lenga lenta
Come bolacha Maria ali sentada entre as mulheres
e na revista Maria fica a par dos fait-divers
Mão gretada da líxivia,
pele negra, cabelo curto,
saudade de Cabo Verde,
vontade de um mundo justo
Porque é sempre mais difícil
pr'a ela que tem um útero
escolher a solidão
entr'um bêbado e um adúltero.
Entre o pó e a sanita
vai limpar também as lágrimas
Vai rezar a Fátima p'rá filha não estar grávida
(Avé Maria cheia de graça,
O senhor é convosco,
Bendita sois vós entre as mulheres)
Este balanço do barco lembra o mar de Santiago
e ao largo do Barreiro quase vê a Ilha de Maio
Quase sente o mesmo cheiro e vai crescendo o seu desejo
de seguir no cacilheiro a eito até Pedra Badejo
Vê a ponte Salazar ali ao lado esquerdo,
ou 25 de Abril como agora é bom dizer
E percebe que mesmo que façam pontes sobre o rio,
ele é demasiado grande para que consigam unir-nos.
E ali no meio do Tejo, debaixo do céu azul,
deu conta que até Cristo virou as costas ao Sul.
Ali no meio das mulheres do barco da madrugada
senta a fadiga da lida, da faxina e da faina pesada
sofre da dupla jornada p'ra pôr comida na mesa
com força de matriarca que arca com a despesa
E entre toda aquela gente, ela é só mais uma preta
só mais uma imigrante empregada da limpeza
só mais uma que de longe vê a imponência imperial
do tal Terreiro do Paço da Lisboa capital
Mais uma que à chegada vai dispersar da manada
Enquanto a cidade acorda já elas estão na batalha
há muito tempo porque o metro comboio autocarro
podem-nos faltar a gente mas não a gente ao trabalho
São os outros cacilheiros, outras pontes do povo
porque a grande sobre o rio
mesmo se o Estado é Novo
tem nome de'um grande herói
do história colonial
e ela é mais uma heroína
que não interessa a Portugal
Em comum só este barco, o mesmo rio, o mesmo mar
e a mesma fé qu'esta vida foi feita p'ra navegar.
Em comum só este barco, o mesmo rio, o mesmo mar
e a mesma fé qu'esta vida foi feita p'ra navegar.
Navegar é preciso, viver não é preciso
(O barco, meu coração não aguenta tanta tormenta)
⏱️ Synced Lyrics
[00:17.59] Passa o passe pelo torniquete
[00:19.48] Espera que o portão abra assim que a hora chegue
[00:22.16] Para que o barco saia, ainda é de madrugada
[00:25.18] O ar frio corta-lhe a cara e no cais os sons metálicos
[00:28.16] São a banda sonora
[00:30.03] Um grito de gaivota, um puto chora com sono
[00:32.72] Enquant'a mãe tenta calá-lo c'um biberão de leite morno
[00:35.76] E ela lembra-se dos filhos que ficaram sós em casa
[00:38.74] E dos filhos da patroa p'ra cuidar na outra margem
[00:41.78] Já se vê Lisboa ao fundo, que amanhece sonolenta
[00:44.46] O motor do barco reza numa lenga-lenga lenta
[00:50.99] Come bolacha Maria ali sentada entre as mulheres
[00:53.63] E na revista Maria fica a par dos fait-divers
[00:56.58] Mão gretada da líxivia,
[00:57.94] Pele negra, cabelo curto,
[00:59.59] Saudade de Cabo Verde,
[01:01.26] Vontade de um mundo justo
[01:02.83] Porque é sempre mais difícil
[01:04.27] Pr'a ela que tem um útero
[01:05.57] Escolher a solidão
[01:07.16] Entr'um bêbado e um adúltero.
[01:08.56] Entre o pó e a sanita
[01:10.16] Vai limpar também as lágrimas
[01:11.85] Vai rezar a Fátima p'rá filha não estar grávida
[01:15.56] (Avé Maria cheia de graça,
[01:17.52] O senhor é convosco,
[01:18.59] Bendita sois vós entre as mulheres)
[01:20.73] Este balanço do barco lembra o mar de Santiago
[01:23.45] E ao largo do Barreiro quase vê a Ilha de Maio
[01:26.64] Quase sente o mesmo cheiro e vai crescendo o seu desejo
[01:29.99] De seguir no cacilheiro a eito até Pedra Badejo
[01:32.94] Vê a ponte Salazar ali ao lado esquerdo,
[01:35.62] Ou 25 de Abril como agora é bom dizer
[01:38.65] E percebe que mesmo que façam pontes sobre o rio,
[01:41.60] Ele é demasiado grande para que consigam unir-nos.
[01:44.89] E ali no meio do Tejo, debaixo do céu azul,
[01:47.87] Deu conta que até Cristo virou as costas ao Sul.
[01:56.73] Ali no meio das mulheres do barco da madrugada
[01:59.74] Senta a fadiga da lida, da faxina e da faina pesada
[02:02.92] Sofre da dupla jornada p'ra pôr comida na mesa
[02:05.92] Com força de matriarca que arca com a despesa
[02:08.99] E entre toda aquela gente, ela é só mais uma preta
[02:11.62] Só mais uma imigrante empregada da limpeza
[02:14.93] Só mais uma que de longe vê a imponência imperial
[02:17.98] Do tal Terreiro do Paço da Lisboa capital
[02:21.16] Mais uma que à chegada vai dispersar da manada
[02:23.83] Enquanto a cidade acorda já elas estão na batalha
[02:27.13] Há muito tempo porque o metro comboio autocarro
[02:29.88] Podem-nos faltar a gente mas não a gente ao trabalho
[02:33.10] São os outros cacilheiros, outras pontes do povo
[02:35.80] Porque a grande sobre o rio
[02:37.43] Mesmo se o Estado é Novo
[02:39.06] Tem nome de'um grande herói
[02:40.46] Do história colonial
[02:42.10] E ela é mais uma heroína
[02:43.42] Que não interessa a Portugal
[02:45.08] Em comum só este barco, o mesmo rio, o mesmo mar
[02:47.99] E a mesma fé qu'esta vida foi feita p'ra navegar.
[02:50.66] Em comum só este barco, o mesmo rio, o mesmo mar
[02:53.44] E a mesma fé qu'esta vida foi feita p'ra navegar.
[02:56.94] Navegar é preciso, viver não é preciso
[03:34.95] (O barco, meu coração não aguenta tanta tormenta)
[03:47.67]
[00:19.48] Espera que o portão abra assim que a hora chegue
[00:22.16] Para que o barco saia, ainda é de madrugada
[00:25.18] O ar frio corta-lhe a cara e no cais os sons metálicos
[00:28.16] São a banda sonora
[00:30.03] Um grito de gaivota, um puto chora com sono
[00:32.72] Enquant'a mãe tenta calá-lo c'um biberão de leite morno
[00:35.76] E ela lembra-se dos filhos que ficaram sós em casa
[00:38.74] E dos filhos da patroa p'ra cuidar na outra margem
[00:41.78] Já se vê Lisboa ao fundo, que amanhece sonolenta
[00:44.46] O motor do barco reza numa lenga-lenga lenta
[00:50.99] Come bolacha Maria ali sentada entre as mulheres
[00:53.63] E na revista Maria fica a par dos fait-divers
[00:56.58] Mão gretada da líxivia,
[00:57.94] Pele negra, cabelo curto,
[00:59.59] Saudade de Cabo Verde,
[01:01.26] Vontade de um mundo justo
[01:02.83] Porque é sempre mais difícil
[01:04.27] Pr'a ela que tem um útero
[01:05.57] Escolher a solidão
[01:07.16] Entr'um bêbado e um adúltero.
[01:08.56] Entre o pó e a sanita
[01:10.16] Vai limpar também as lágrimas
[01:11.85] Vai rezar a Fátima p'rá filha não estar grávida
[01:15.56] (Avé Maria cheia de graça,
[01:17.52] O senhor é convosco,
[01:18.59] Bendita sois vós entre as mulheres)
[01:20.73] Este balanço do barco lembra o mar de Santiago
[01:23.45] E ao largo do Barreiro quase vê a Ilha de Maio
[01:26.64] Quase sente o mesmo cheiro e vai crescendo o seu desejo
[01:29.99] De seguir no cacilheiro a eito até Pedra Badejo
[01:32.94] Vê a ponte Salazar ali ao lado esquerdo,
[01:35.62] Ou 25 de Abril como agora é bom dizer
[01:38.65] E percebe que mesmo que façam pontes sobre o rio,
[01:41.60] Ele é demasiado grande para que consigam unir-nos.
[01:44.89] E ali no meio do Tejo, debaixo do céu azul,
[01:47.87] Deu conta que até Cristo virou as costas ao Sul.
[01:56.73] Ali no meio das mulheres do barco da madrugada
[01:59.74] Senta a fadiga da lida, da faxina e da faina pesada
[02:02.92] Sofre da dupla jornada p'ra pôr comida na mesa
[02:05.92] Com força de matriarca que arca com a despesa
[02:08.99] E entre toda aquela gente, ela é só mais uma preta
[02:11.62] Só mais uma imigrante empregada da limpeza
[02:14.93] Só mais uma que de longe vê a imponência imperial
[02:17.98] Do tal Terreiro do Paço da Lisboa capital
[02:21.16] Mais uma que à chegada vai dispersar da manada
[02:23.83] Enquanto a cidade acorda já elas estão na batalha
[02:27.13] Há muito tempo porque o metro comboio autocarro
[02:29.88] Podem-nos faltar a gente mas não a gente ao trabalho
[02:33.10] São os outros cacilheiros, outras pontes do povo
[02:35.80] Porque a grande sobre o rio
[02:37.43] Mesmo se o Estado é Novo
[02:39.06] Tem nome de'um grande herói
[02:40.46] Do história colonial
[02:42.10] E ela é mais uma heroína
[02:43.42] Que não interessa a Portugal
[02:45.08] Em comum só este barco, o mesmo rio, o mesmo mar
[02:47.99] E a mesma fé qu'esta vida foi feita p'ra navegar.
[02:50.66] Em comum só este barco, o mesmo rio, o mesmo mar
[02:53.44] E a mesma fé qu'esta vida foi feita p'ra navegar.
[02:56.94] Navegar é preciso, viver não é preciso
[03:34.95] (O barco, meu coração não aguenta tanta tormenta)
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