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A Incrível História de Gabriela de Jesus

👤 Miguel Araújo 🎼 Peixe Azul ⏱️ 4:45
🎵 2883 characters
⏱️ 4:45 duration
🆔 ID: 15259977

📜 Lyrics

Pobre menina, tão acidentada sina
Encontrada numa esquina, numa cestinha de palha
Em Lourizela, nas traseiras da capela
Como cria de cadela sem santinho que lhe valha

O padre Alfredo velho, cobarde e azedo
Não é tarde nem é cedo, despachou a desditosa
Por este meio, foi na volta do correio
Numa mula sem arreio enviada pra Murtosa

A dona Otília que ninguém nem dela queria
Viu na curiosa cria, cura para a solidão
Deu-lhe uma sopa, e de alguns restos de estopa
Fez-lhe carapins e roupa e uma cama sem colchão

Ao ver aquela tez de cravo e de canela
Deu-lhe o nome Gabriela (Dava a cara com a careta)
Mas sua beleza em brasa, em chama acesa
Pegou fogo à redondeza como o bafo do capeta

E a inocente um pobre meio rei de gente
Muito recatadamente, espairecia a sua mágoa
Com um rádio velho boca de batom vermelho
A cantar em frente ao espelho as canções da Lena d'água

Lobos malvados, velhos loucos reformados
Mexericos, maus olhados das beatas da igreja
Mal via a hora de arrancar dali para fora
Sem deixar rasto, ir embora ver o mundo, ver Estarreja

Sem pé de meia teve uma brilhante ideia
Decidiu pedir boleia e só parar em Paris
Sem carteira, lá foi sem eira nem beira
E nem sequer viu a fronteira não chegou nem a Sanfins

E em Valpaços com alma em mil pedaços
Entreteve-se nos braços de um magala de alcafache
Pediu boleia a um pelintra de Gouveia
Que a mandou sair em Seia e nunca mais olhou para trás

Sem armar giga cantou-lhe uma cantiga
Deixou-a de barriga e arrancou sem dar sinal
Sem dois tostões deu por ela aos trambolhões
Junto ao porto de Leixões com uma filha e um ucal

Sacou dinheiro a um velho engenheiro
E escondeu-se num cargueiro que rumava à capital
Chegou-se à proa e quase achou que a vida é boa
Ao ver as luzes de Lisboa lindas como num postal

Entre destratos, desaforos, desacatos
Varreu escadas, lavou pratos, numa tasca do Cacém
Entregou-se a um tratante de Pedrouços
Saído dos calabouços que a deixou sem um vintém

No Intendente tropeçou numa vidente
Que jurou que mais à frente, a sorte havia de sorrir
A cartomante uma velha de turbante
Intuiu pelo semblante um futuro a reluzir

Na luz da vela, viu a luz de Gabriela
Com direito até a estrela no passeio de Hollywood
Em poucos dias por misteriosas vias
Cumpriam-se as profecias mais certeiras que o talmude

Nessa semana foi pra América, fez fama
Privou com a Primeira Dama, levou a filha ao Hawai
E em Gouveia passa um louco, volta e meia
Que blasfema e cambaleia e garante que é o pai

E na Murtosa o padre faz menção honrosa
Festa, missa, pompa e prosa que hoje é feriado local
Em Lourizela há uma estátua em honra dela
Aqui nasceu Gabriela o grande orgulho nacional

Em Lourizela, bem de frente para capela
Para sempre Gabriela como quem diz ah pois é
E o engenheiro confere o bolso traseiro
Vê que lhe faltou dinheiro e volta para Leça a pé

⏱️ Synced Lyrics

[00:09.51] Pobre menina, tão acidentada sina
[00:13.15] Encontrada numa esquina, numa cestinha de palha
[00:17.81] Em Lourizela, nas traseiras da capela
[00:21.27] Como cria de cadela sem santinho que lhe valha
[00:25.81] O padre Alfredo velho, cobarde e azedo
[00:29.36] Não é tarde nem é cedo, despachou a desditosa
[00:34.09] Por este meio, foi na volta do correio
[00:37.49] Numa mula sem arreio enviada pra Murtosa
[00:42.17] A dona Otília que ninguém nem dela queria
[00:45.60] Viu na curiosa cria, cura para a solidão
[00:50.23] Deu-lhe uma sopa, e de alguns restos de estopa
[00:53.71] Fez-lhe carapins e roupa e uma cama sem colchão
[00:58.51] Ao ver aquela tez de cravo e de canela
[01:01.98] Deu-lhe o nome Gabriela (Dava a cara com a careta)
[01:06.80] Mas sua beleza em brasa, em chama acesa
[01:09.95] Pegou fogo à redondeza como o bafo do capeta
[01:14.95] E a inocente um pobre meio rei de gente
[01:18.05] Muito recatadamente, espairecia a sua mágoa
[01:22.65] Com um rádio velho boca de batom vermelho
[01:26.28] A cantar em frente ao espelho as canções da Lena d'água
[01:31.02] Lobos malvados, velhos loucos reformados
[01:34.52] Mexericos, maus olhados das beatas da igreja
[01:39.13] Mal via a hora de arrancar dali para fora
[01:42.68] Sem deixar rasto, ir embora ver o mundo, ver Estarreja
[01:47.43] Sem pé de meia teve uma brilhante ideia
[01:50.80] Decidiu pedir boleia e só parar em Paris
[01:55.52] Sem carteira, lá foi sem eira nem beira
[01:58.93] E nem sequer viu a fronteira não chegou nem a Sanfins
[02:03.68] E em Valpaços com alma em mil pedaços
[02:06.97] Entreteve-se nos braços de um magala de alcafache
[02:11.66] Pediu boleia a um pelintra de Gouveia
[02:15.09] Que a mandou sair em Seia e nunca mais olhou para trás
[02:19.83] Sem armar giga cantou-lhe uma cantiga
[02:23.27] Deixou-a de barriga e arrancou sem dar sinal
[02:27.97] Sem dois tostões deu por ela aos trambolhões
[02:31.55] Junto ao porto de Leixões com uma filha e um ucal
[02:36.13] Sacou dinheiro a um velho engenheiro
[02:39.55] E escondeu-se num cargueiro que rumava à capital
[02:44.34] Chegou-se à proa e quase achou que a vida é boa
[02:47.60] Ao ver as luzes de Lisboa lindas como num postal
[02:52.36] Entre destratos, desaforos, desacatos
[02:55.77] Varreu escadas, lavou pratos, numa tasca do Cacém
[03:00.51] Entregou-se a um tratante de Pedrouços
[03:03.98] Saído dos calabouços que a deixou sem um vintém
[03:08.65] No Intendente tropeçou numa vidente
[03:12.11] Que jurou que mais à frente, a sorte havia de sorrir
[03:16.93] A cartomante uma velha de turbante
[03:20.11] Intuiu pelo semblante um futuro a reluzir
[03:25.07] Na luz da vela, viu a luz de Gabriela
[03:28.49] Com direito até a estrela no passeio de Hollywood
[03:33.09] Em poucos dias por misteriosas vias
[03:36.49] Cumpriam-se as profecias mais certeiras que o talmude
[03:41.12] Nessa semana foi pra América, fez fama
[03:44.63] Privou com a Primeira Dama, levou a filha ao Hawai
[03:49.58] E em Gouveia passa um louco, volta e meia
[03:52.85] Que blasfema e cambaleia e garante que é o pai
[03:57.44] E na Murtosa o padre faz menção honrosa
[04:00.90] Festa, missa, pompa e prosa que hoje é feriado local
[04:05.39] Em Lourizela há uma estátua em honra dela
[04:08.92] Aqui nasceu Gabriela o grande orgulho nacional
[04:13.78] Em Lourizela, bem de frente para capela
[04:17.06] Para sempre Gabriela como quem diz ah pois é
[04:21.82] E o engenheiro confere o bolso traseiro
[04:25.21] Vê que lhe faltou dinheiro e volta para Leça a pé
[04:30.02]

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