Segunda Chance
🎵 4953 characters
⏱️ 7:28 duration
🆔 ID: 22436782
📜 Lyrics
Escutei dois tiros
Na madrugada tudo rola, todos tão submetidos
Tô andando em direção à minha quadra
Olho pro chão e vejo sangue na calçada
Que caralho, peito molhado
Tô suando frio, arrepiando os cabelos do braço
Que porra é essa? Será que me acertou?
Olhei pra baixo, vi meu peito furado
Mas não sentia dor
Continuei andando
Nem parece que eu tô respirando
Eu sinto sede, boca ressecada com gosto de peixe
Tudo estranho, mó esquisito
Cheguei na porta de casa, escutei os gritos
Que treta é essa? Porta aberta uma hora dessa?
Entrei depressa pra ver de qual que é
Me assustei quando olhei e vi os gambé
O que é pior, vi meu corpo no chão da sala
Coberto com a toalha e minha mãe desesperada
Gritando em prantos: Só tinha 18 anos
Eu quero morrer com ele, meu coração está sangrando
Louca sensação
O que que eu tô fazendo ali no chão?
Começo a pensar
O que que eu fiz aqui na terra?
O que que eu vinha representar?
Afinal de contas, na trigésima
Meu caso vai ser visto como acerto de contas
Vou ser pichado por muitos
Mais um bandido que virou defunto
Pensar na minha mãe um pouco
Que viu dois filhos se afundarem no mesmo poço
Calabouço pra quem é bicho solto
Um tinha 23 e eu só tinha 18
E agora o que fazer?
Retrospectiva de vida
Logo eu que queria ter um proceder
Levante agora, olhe para os céus
A salvação virá de Deus pai
Está em tuas mãos a segunda chance
Não olhe para trás, siga adiante, irmão
Madrugada se foi, o dia amanheceu
Mó inflamação, a casa logo encheu
Vi altos neguinhos que nem mesmo conhecia
Que apontava pro meu corpo, falava e sorria
Eu não tô nem aí, é Deus quem vai julgar
Do jeito que eu fiquei, eles também podem ficar, hã
Minha dona chegou, com lágrima no rosto
Em seguida se jogou em direção ao meu corpo
Sei que pelo menos da parte dela não tinha falsidade
Era a que sempre me apoiava e me dava coragem
Cadê os meus parceiros, os meus aliados?
Será que eram irmãos ou só eram colados?
Vamo ver quem vai me decepcionar
Tá chegando quatro tru' que entram devagar
Um olhando pro outro meio estranho
Um se desespera e grita: Porra, logo meu mano!
Nesta hora minha alma chorou
Senti que eu era alguém mesmo não sendo doutor
Eu tô sentindo coisa estranha ali no meio
Neguinho de campana, apontando o dedo
Talvez quem me acertou veio conferir o óbito
Mas não seria mais prático
Ter me dado um confere entre os olhos?
Acabaria a treta, problema resolvido
O que me admira é um cu desse querer bancar de bandido
Ah, nem sei do que é que tô falando
Talvez seja um gambé que me acertou por engano, não
Essa hipótese pode ir descartando
Por engano nem rola, só se foi praticando
Por engano nem rola, só se foi praticando
Só se foi praticando
Levante agora, olhe para os céus
A salvação virá de Deus pai
Está em tuas mãos a segunda chance
Não olhe para trás, siga adiante, irmão
Velório praticado e sepultamento em seguida
Talvez encontre a minha paz nessa outra vida
Porque a que passou foi cruel
Porque na guerrilha do mundão
Quem não se joga vira réu
Penitência, talvez por influência
Sentença é dada a quem pouco pensa
Talvez seja por isso que não passa a decadência
Meu instinto sempre foi bicho solto
Se em vida era nada, imagine agora, morto
Vou nem comentar, deixa pra lá
Se foi Deus quem escreveu, quem é que vai mudar?
Eu sei que a carne é fraca, mas o espírito não
Porque sempre fui grilado em ver defunto em caixão
Em vida é uma coisa, vida após a morte é outra
No mundo é aparência, perfume e roupa
Mas pra defunto não tem moda, seja rico ou seja pobre
É só terra e cova, agora é foda
Último momento, o caixão já tá nas cordas
É lamentável, mas fazer o quê?
Eu sei que eu tive que morrer pra outro nascer
Surge um vulto de repente, será o quê?
Duas vozes me chamando e eu naquela sem saber
Do meu lado direito, jardim de rosas brancas
Do lado esquerdo, rosas pretas que sangram
E, de repente, outro vulto na minha direção
Num baque forte me leva num arrastão
Abri os olhos, cansado
Com medo, soado, apavorado
Minha mãe olhou pra mim e começou a passar mal
A enfermeira falou que eu estava na CTI de um hospital
Disse também que eu nasci de novo
E que pelos médicos já estava dado como morto
É, Gomorra, a vida prega peças na gente
Coisas que Deus faz são poucos que entende
Às vezes somos sujeitados
A passar por coisas estranhas
Pra ver se entendemos o recado
Mas aí, tô firmão', tô disposto
Voltei pra abraçar minha quebrada
E começar tudo de novo
Mas agora é sem o pó
Sem a merla, sem o ferro, sem o B.O
Como tudo de ruim quando se conta, torna brincadeira
Contei essa história pros irmãos
Enquanto nós tomávamos uma cerva' lá na feira
Aí, véi', se Deus te deu uma segunda chance
É porque ele tem algo na sua vida (a salvação)
Tá ligado? (virá de Deus pai)
Então não deixe com que tudo se torne em vão
Prossiga a jornada, São Sebastião
Na madrugada tudo rola, todos tão submetidos
Tô andando em direção à minha quadra
Olho pro chão e vejo sangue na calçada
Que caralho, peito molhado
Tô suando frio, arrepiando os cabelos do braço
Que porra é essa? Será que me acertou?
Olhei pra baixo, vi meu peito furado
Mas não sentia dor
Continuei andando
Nem parece que eu tô respirando
Eu sinto sede, boca ressecada com gosto de peixe
Tudo estranho, mó esquisito
Cheguei na porta de casa, escutei os gritos
Que treta é essa? Porta aberta uma hora dessa?
Entrei depressa pra ver de qual que é
Me assustei quando olhei e vi os gambé
O que é pior, vi meu corpo no chão da sala
Coberto com a toalha e minha mãe desesperada
Gritando em prantos: Só tinha 18 anos
Eu quero morrer com ele, meu coração está sangrando
Louca sensação
O que que eu tô fazendo ali no chão?
Começo a pensar
O que que eu fiz aqui na terra?
O que que eu vinha representar?
Afinal de contas, na trigésima
Meu caso vai ser visto como acerto de contas
Vou ser pichado por muitos
Mais um bandido que virou defunto
Pensar na minha mãe um pouco
Que viu dois filhos se afundarem no mesmo poço
Calabouço pra quem é bicho solto
Um tinha 23 e eu só tinha 18
E agora o que fazer?
Retrospectiva de vida
Logo eu que queria ter um proceder
Levante agora, olhe para os céus
A salvação virá de Deus pai
Está em tuas mãos a segunda chance
Não olhe para trás, siga adiante, irmão
Madrugada se foi, o dia amanheceu
Mó inflamação, a casa logo encheu
Vi altos neguinhos que nem mesmo conhecia
Que apontava pro meu corpo, falava e sorria
Eu não tô nem aí, é Deus quem vai julgar
Do jeito que eu fiquei, eles também podem ficar, hã
Minha dona chegou, com lágrima no rosto
Em seguida se jogou em direção ao meu corpo
Sei que pelo menos da parte dela não tinha falsidade
Era a que sempre me apoiava e me dava coragem
Cadê os meus parceiros, os meus aliados?
Será que eram irmãos ou só eram colados?
Vamo ver quem vai me decepcionar
Tá chegando quatro tru' que entram devagar
Um olhando pro outro meio estranho
Um se desespera e grita: Porra, logo meu mano!
Nesta hora minha alma chorou
Senti que eu era alguém mesmo não sendo doutor
Eu tô sentindo coisa estranha ali no meio
Neguinho de campana, apontando o dedo
Talvez quem me acertou veio conferir o óbito
Mas não seria mais prático
Ter me dado um confere entre os olhos?
Acabaria a treta, problema resolvido
O que me admira é um cu desse querer bancar de bandido
Ah, nem sei do que é que tô falando
Talvez seja um gambé que me acertou por engano, não
Essa hipótese pode ir descartando
Por engano nem rola, só se foi praticando
Por engano nem rola, só se foi praticando
Só se foi praticando
Levante agora, olhe para os céus
A salvação virá de Deus pai
Está em tuas mãos a segunda chance
Não olhe para trás, siga adiante, irmão
Velório praticado e sepultamento em seguida
Talvez encontre a minha paz nessa outra vida
Porque a que passou foi cruel
Porque na guerrilha do mundão
Quem não se joga vira réu
Penitência, talvez por influência
Sentença é dada a quem pouco pensa
Talvez seja por isso que não passa a decadência
Meu instinto sempre foi bicho solto
Se em vida era nada, imagine agora, morto
Vou nem comentar, deixa pra lá
Se foi Deus quem escreveu, quem é que vai mudar?
Eu sei que a carne é fraca, mas o espírito não
Porque sempre fui grilado em ver defunto em caixão
Em vida é uma coisa, vida após a morte é outra
No mundo é aparência, perfume e roupa
Mas pra defunto não tem moda, seja rico ou seja pobre
É só terra e cova, agora é foda
Último momento, o caixão já tá nas cordas
É lamentável, mas fazer o quê?
Eu sei que eu tive que morrer pra outro nascer
Surge um vulto de repente, será o quê?
Duas vozes me chamando e eu naquela sem saber
Do meu lado direito, jardim de rosas brancas
Do lado esquerdo, rosas pretas que sangram
E, de repente, outro vulto na minha direção
Num baque forte me leva num arrastão
Abri os olhos, cansado
Com medo, soado, apavorado
Minha mãe olhou pra mim e começou a passar mal
A enfermeira falou que eu estava na CTI de um hospital
Disse também que eu nasci de novo
E que pelos médicos já estava dado como morto
É, Gomorra, a vida prega peças na gente
Coisas que Deus faz são poucos que entende
Às vezes somos sujeitados
A passar por coisas estranhas
Pra ver se entendemos o recado
Mas aí, tô firmão', tô disposto
Voltei pra abraçar minha quebrada
E começar tudo de novo
Mas agora é sem o pó
Sem a merla, sem o ferro, sem o B.O
Como tudo de ruim quando se conta, torna brincadeira
Contei essa história pros irmãos
Enquanto nós tomávamos uma cerva' lá na feira
Aí, véi', se Deus te deu uma segunda chance
É porque ele tem algo na sua vida (a salvação)
Tá ligado? (virá de Deus pai)
Então não deixe com que tudo se torne em vão
Prossiga a jornada, São Sebastião
⏱️ Synced Lyrics
[00:24.96] Escutei dois tiros
[00:26.52] Na madrugada tudo rola, todos tão submetidos
[00:30.33] Tô andando em direção à minha quadra
[00:32.55] Olho pro chão e vejo sangue na calçada
[00:36.10] Que caralho, peito molhado
[00:38.51] Tô suando frio, arrepiando os cabelos do braço
[00:42.54] Que porra é essa? Será que me acertou?
[00:45.30] Olhei pra baixo, vi meu peito furado
[00:47.84] Mas não sentia dor
[00:49.62] Continuei andando
[00:51.37] Nem parece que eu tô respirando
[00:53.71] Eu sinto sede, boca ressecada com gosto de peixe
[00:58.33] Tudo estranho, mó esquisito
[01:00.32] Cheguei na porta de casa, escutei os gritos
[01:03.83] Que treta é essa? Porta aberta uma hora dessa?
[01:06.91] Entrei depressa pra ver de qual que é
[01:09.84] Me assustei quando olhei e vi os gambé
[01:12.68] O que é pior, vi meu corpo no chão da sala
[01:16.00] Coberto com a toalha e minha mãe desesperada
[01:19.18] Gritando em prantos: Só tinha 18 anos
[01:22.28] Eu quero morrer com ele, meu coração está sangrando
[01:25.65] Louca sensação
[01:27.94] O que que eu tô fazendo ali no chão?
[01:30.19] Começo a pensar
[01:31.54] O que que eu fiz aqui na terra?
[01:32.71] O que que eu vinha representar?
[01:34.99] Afinal de contas, na trigésima
[01:37.25] Meu caso vai ser visto como acerto de contas
[01:40.42] Vou ser pichado por muitos
[01:42.92] Mais um bandido que virou defunto
[01:45.64] Pensar na minha mãe um pouco
[01:47.68] Que viu dois filhos se afundarem no mesmo poço
[01:51.04] Calabouço pra quem é bicho solto
[01:53.38] Um tinha 23 e eu só tinha 18
[01:56.74] E agora o que fazer?
[01:59.04] Retrospectiva de vida
[02:00.99] Logo eu que queria ter um proceder
[02:04.99] Levante agora, olhe para os céus
[02:11.25] A salvação virá de Deus pai
[02:17.44] Está em tuas mãos a segunda chance
[02:23.51] Não olhe para trás, siga adiante, irmão
[02:29.13] Madrugada se foi, o dia amanheceu
[02:32.76] Mó inflamação, a casa logo encheu
[02:35.75] Vi altos neguinhos que nem mesmo conhecia
[02:38.85] Que apontava pro meu corpo, falava e sorria
[02:42.50] Eu não tô nem aí, é Deus quem vai julgar
[02:45.76] Do jeito que eu fiquei, eles também podem ficar, hã
[02:49.40] Minha dona chegou, com lágrima no rosto
[02:52.49] Em seguida se jogou em direção ao meu corpo
[02:55.46] Sei que pelo menos da parte dela não tinha falsidade
[02:59.88] Era a que sempre me apoiava e me dava coragem
[03:03.57] Cadê os meus parceiros, os meus aliados?
[03:06.62] Será que eram irmãos ou só eram colados?
[03:09.62] Vamo ver quem vai me decepcionar
[03:12.77] Tá chegando quatro tru' que entram devagar
[03:14.66] Um olhando pro outro meio estranho
[03:17.84] Um se desespera e grita: Porra, logo meu mano!
[03:22.06] Nesta hora minha alma chorou
[03:25.41] Senti que eu era alguém mesmo não sendo doutor
[03:28.56] Eu tô sentindo coisa estranha ali no meio
[03:31.18] Neguinho de campana, apontando o dedo
[03:34.26] Talvez quem me acertou veio conferir o óbito
[03:38.15] Mas não seria mais prático
[03:39.93] Ter me dado um confere entre os olhos?
[03:42.54] Acabaria a treta, problema resolvido
[03:45.80] O que me admira é um cu desse querer bancar de bandido
[03:49.78] Ah, nem sei do que é que tô falando
[03:52.64] Talvez seja um gambé que me acertou por engano, não
[03:56.39] Essa hipótese pode ir descartando
[03:58.63] Por engano nem rola, só se foi praticando
[04:02.68] Por engano nem rola, só se foi praticando
[04:06.51] Só se foi praticando
[04:09.66] Levante agora, olhe para os céus
[04:15.95] A salvação virá de Deus pai
[04:22.07] Está em tuas mãos a segunda chance
[04:28.22] Não olhe para trás, siga adiante, irmão
[04:34.05] Velório praticado e sepultamento em seguida
[04:37.63] Talvez encontre a minha paz nessa outra vida
[04:41.02] Porque a que passou foi cruel
[04:43.45] Porque na guerrilha do mundão
[04:45.20] Quem não se joga vira réu
[04:47.40] Penitência, talvez por influência
[04:49.91] Sentença é dada a quem pouco pensa
[04:52.62] Talvez seja por isso que não passa a decadência
[04:56.43] Meu instinto sempre foi bicho solto
[04:59.49] Se em vida era nada, imagine agora, morto
[05:03.59] Vou nem comentar, deixa pra lá
[05:05.78] Se foi Deus quem escreveu, quem é que vai mudar?
[05:09.05] Eu sei que a carne é fraca, mas o espírito não
[05:12.70] Porque sempre fui grilado em ver defunto em caixão
[05:16.03] Em vida é uma coisa, vida após a morte é outra
[05:19.94] No mundo é aparência, perfume e roupa
[05:23.36] Mas pra defunto não tem moda, seja rico ou seja pobre
[05:27.29] É só terra e cova, agora é foda
[05:30.38] Último momento, o caixão já tá nas cordas
[05:33.40] É lamentável, mas fazer o quê?
[05:36.49] Eu sei que eu tive que morrer pra outro nascer
[05:39.26] Surge um vulto de repente, será o quê?
[05:42.34] Duas vozes me chamando e eu naquela sem saber
[05:45.59] Do meu lado direito, jardim de rosas brancas
[05:49.19] Do lado esquerdo, rosas pretas que sangram
[05:52.33] E, de repente, outro vulto na minha direção
[05:55.80] Num baque forte me leva num arrastão
[05:58.96] Abri os olhos, cansado
[06:00.89] Com medo, soado, apavorado
[06:03.87] Minha mãe olhou pra mim e começou a passar mal
[06:07.19] A enfermeira falou que eu estava na CTI de um hospital
[06:11.84] Disse também que eu nasci de novo
[06:14.70] E que pelos médicos já estava dado como morto
[06:20.21] É, Gomorra, a vida prega peças na gente
[06:23.29] Coisas que Deus faz são poucos que entende
[06:26.41] Às vezes somos sujeitados
[06:28.42] A passar por coisas estranhas
[06:30.50] Pra ver se entendemos o recado
[06:32.33] Mas aí, tô firmão', tô disposto
[06:34.85] Voltei pra abraçar minha quebrada
[06:36.70] E começar tudo de novo
[06:38.92] Mas agora é sem o pó
[06:40.72] Sem a merla, sem o ferro, sem o B.O
[06:43.95] Como tudo de ruim quando se conta, torna brincadeira
[06:47.92] Contei essa história pros irmãos
[06:50.36] Enquanto nós tomávamos uma cerva' lá na feira
[06:54.30] Aí, véi', se Deus te deu uma segunda chance
[06:57.69] É porque ele tem algo na sua vida (a salvação)
[06:59.45] Tá ligado? (virá de Deus pai)
[07:00.48] Então não deixe com que tudo se torne em vão
[07:03.39] Prossiga a jornada, São Sebastião
[07:05.96]
[00:26.52] Na madrugada tudo rola, todos tão submetidos
[00:30.33] Tô andando em direção à minha quadra
[00:32.55] Olho pro chão e vejo sangue na calçada
[00:36.10] Que caralho, peito molhado
[00:38.51] Tô suando frio, arrepiando os cabelos do braço
[00:42.54] Que porra é essa? Será que me acertou?
[00:45.30] Olhei pra baixo, vi meu peito furado
[00:47.84] Mas não sentia dor
[00:49.62] Continuei andando
[00:51.37] Nem parece que eu tô respirando
[00:53.71] Eu sinto sede, boca ressecada com gosto de peixe
[00:58.33] Tudo estranho, mó esquisito
[01:00.32] Cheguei na porta de casa, escutei os gritos
[01:03.83] Que treta é essa? Porta aberta uma hora dessa?
[01:06.91] Entrei depressa pra ver de qual que é
[01:09.84] Me assustei quando olhei e vi os gambé
[01:12.68] O que é pior, vi meu corpo no chão da sala
[01:16.00] Coberto com a toalha e minha mãe desesperada
[01:19.18] Gritando em prantos: Só tinha 18 anos
[01:22.28] Eu quero morrer com ele, meu coração está sangrando
[01:25.65] Louca sensação
[01:27.94] O que que eu tô fazendo ali no chão?
[01:30.19] Começo a pensar
[01:31.54] O que que eu fiz aqui na terra?
[01:32.71] O que que eu vinha representar?
[01:34.99] Afinal de contas, na trigésima
[01:37.25] Meu caso vai ser visto como acerto de contas
[01:40.42] Vou ser pichado por muitos
[01:42.92] Mais um bandido que virou defunto
[01:45.64] Pensar na minha mãe um pouco
[01:47.68] Que viu dois filhos se afundarem no mesmo poço
[01:51.04] Calabouço pra quem é bicho solto
[01:53.38] Um tinha 23 e eu só tinha 18
[01:56.74] E agora o que fazer?
[01:59.04] Retrospectiva de vida
[02:00.99] Logo eu que queria ter um proceder
[02:04.99] Levante agora, olhe para os céus
[02:11.25] A salvação virá de Deus pai
[02:17.44] Está em tuas mãos a segunda chance
[02:23.51] Não olhe para trás, siga adiante, irmão
[02:29.13] Madrugada se foi, o dia amanheceu
[02:32.76] Mó inflamação, a casa logo encheu
[02:35.75] Vi altos neguinhos que nem mesmo conhecia
[02:38.85] Que apontava pro meu corpo, falava e sorria
[02:42.50] Eu não tô nem aí, é Deus quem vai julgar
[02:45.76] Do jeito que eu fiquei, eles também podem ficar, hã
[02:49.40] Minha dona chegou, com lágrima no rosto
[02:52.49] Em seguida se jogou em direção ao meu corpo
[02:55.46] Sei que pelo menos da parte dela não tinha falsidade
[02:59.88] Era a que sempre me apoiava e me dava coragem
[03:03.57] Cadê os meus parceiros, os meus aliados?
[03:06.62] Será que eram irmãos ou só eram colados?
[03:09.62] Vamo ver quem vai me decepcionar
[03:12.77] Tá chegando quatro tru' que entram devagar
[03:14.66] Um olhando pro outro meio estranho
[03:17.84] Um se desespera e grita: Porra, logo meu mano!
[03:22.06] Nesta hora minha alma chorou
[03:25.41] Senti que eu era alguém mesmo não sendo doutor
[03:28.56] Eu tô sentindo coisa estranha ali no meio
[03:31.18] Neguinho de campana, apontando o dedo
[03:34.26] Talvez quem me acertou veio conferir o óbito
[03:38.15] Mas não seria mais prático
[03:39.93] Ter me dado um confere entre os olhos?
[03:42.54] Acabaria a treta, problema resolvido
[03:45.80] O que me admira é um cu desse querer bancar de bandido
[03:49.78] Ah, nem sei do que é que tô falando
[03:52.64] Talvez seja um gambé que me acertou por engano, não
[03:56.39] Essa hipótese pode ir descartando
[03:58.63] Por engano nem rola, só se foi praticando
[04:02.68] Por engano nem rola, só se foi praticando
[04:06.51] Só se foi praticando
[04:09.66] Levante agora, olhe para os céus
[04:15.95] A salvação virá de Deus pai
[04:22.07] Está em tuas mãos a segunda chance
[04:28.22] Não olhe para trás, siga adiante, irmão
[04:34.05] Velório praticado e sepultamento em seguida
[04:37.63] Talvez encontre a minha paz nessa outra vida
[04:41.02] Porque a que passou foi cruel
[04:43.45] Porque na guerrilha do mundão
[04:45.20] Quem não se joga vira réu
[04:47.40] Penitência, talvez por influência
[04:49.91] Sentença é dada a quem pouco pensa
[04:52.62] Talvez seja por isso que não passa a decadência
[04:56.43] Meu instinto sempre foi bicho solto
[04:59.49] Se em vida era nada, imagine agora, morto
[05:03.59] Vou nem comentar, deixa pra lá
[05:05.78] Se foi Deus quem escreveu, quem é que vai mudar?
[05:09.05] Eu sei que a carne é fraca, mas o espírito não
[05:12.70] Porque sempre fui grilado em ver defunto em caixão
[05:16.03] Em vida é uma coisa, vida após a morte é outra
[05:19.94] No mundo é aparência, perfume e roupa
[05:23.36] Mas pra defunto não tem moda, seja rico ou seja pobre
[05:27.29] É só terra e cova, agora é foda
[05:30.38] Último momento, o caixão já tá nas cordas
[05:33.40] É lamentável, mas fazer o quê?
[05:36.49] Eu sei que eu tive que morrer pra outro nascer
[05:39.26] Surge um vulto de repente, será o quê?
[05:42.34] Duas vozes me chamando e eu naquela sem saber
[05:45.59] Do meu lado direito, jardim de rosas brancas
[05:49.19] Do lado esquerdo, rosas pretas que sangram
[05:52.33] E, de repente, outro vulto na minha direção
[05:55.80] Num baque forte me leva num arrastão
[05:58.96] Abri os olhos, cansado
[06:00.89] Com medo, soado, apavorado
[06:03.87] Minha mãe olhou pra mim e começou a passar mal
[06:07.19] A enfermeira falou que eu estava na CTI de um hospital
[06:11.84] Disse também que eu nasci de novo
[06:14.70] E que pelos médicos já estava dado como morto
[06:20.21] É, Gomorra, a vida prega peças na gente
[06:23.29] Coisas que Deus faz são poucos que entende
[06:26.41] Às vezes somos sujeitados
[06:28.42] A passar por coisas estranhas
[06:30.50] Pra ver se entendemos o recado
[06:32.33] Mas aí, tô firmão', tô disposto
[06:34.85] Voltei pra abraçar minha quebrada
[06:36.70] E começar tudo de novo
[06:38.92] Mas agora é sem o pó
[06:40.72] Sem a merla, sem o ferro, sem o B.O
[06:43.95] Como tudo de ruim quando se conta, torna brincadeira
[06:47.92] Contei essa história pros irmãos
[06:50.36] Enquanto nós tomávamos uma cerva' lá na feira
[06:54.30] Aí, véi', se Deus te deu uma segunda chance
[06:57.69] É porque ele tem algo na sua vida (a salvação)
[06:59.45] Tá ligado? (virá de Deus pai)
[07:00.48] Então não deixe com que tudo se torne em vão
[07:03.39] Prossiga a jornada, São Sebastião
[07:05.96]