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O Estrangeiro (1989)

👤 Caetano Veloso 🎼 Estrangeiro ⏱️ 6:12
🎵 2316 characters
⏱️ 6:12 duration
🆔 ID: 23906763

📜 Lyrics

O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara
Pareceu-lhe uma boca banguela
E eu, menos a conhecera, mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?
O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
Uma arara?
Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
Em que se passara passa passará um raro pesadelo
Que aqui começo a construir, sempre buscando o belo e o Amaro
Eu não sonhei
A praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia branca e óleo diesel
Sob meus tênis
E o Pão de Açúcar menos óbvio possível à minha frente
Um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas
A áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura
Do branco das areias e das espumas
Que era tudo quanto havia então de aurora
Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas
E uma menina ainda adolescente e muito linda
Não olho pra trás, mas sei de tudo
Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase-não-púrpura da menina
Pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa da luz nos brancos dente e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda
E ouço as vozes
Os dois me dizem
Num duplo som
Como que sampleados num Sinclavier
É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela
É um desmascaro
Singelo grito
"O rei está nu"
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu
E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo
Some may like a soft brazilian singer
But I've given up all attempts at perfection

⏱️ Synced Lyrics

[00:00.87] O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
[00:08.07] O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
[00:16.01] A Baía de Guanabara
[00:20.68] O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara
[00:32.29] Pareceu-lhe uma boca banguela
[00:38.84] E eu, menos a conhecera, mais a amara?
[00:45.52] Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
[00:50.35] O que é uma coisa bela?
[00:55.21] O amor é cego
[00:59.80] Ray Charles é cego
[01:04.09] Stevie Wonder é cego
[01:08.09] E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
[01:14.00] Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
[01:19.55] Uma arara?
[01:21.83] Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
[01:29.99] Em que se passara passa passará um raro pesadelo
[01:39.36] Que aqui começo a construir, sempre buscando o belo e o Amaro
[01:47.08] Eu não sonhei
[01:50.51] A praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia branca e óleo diesel
[01:54.88] Sob meus tênis
[01:56.69] E o Pão de Açúcar menos óbvio possível à minha frente
[02:00.82] Um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas
[02:08.81] A áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura
[02:16.04] Do branco das areias e das espumas
[02:19.63] Que era tudo quanto havia então de aurora
[02:27.53] Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas
[02:34.73] E uma menina ainda adolescente e muito linda
[02:43.95] Não olho pra trás, mas sei de tudo
[02:52.50] Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
[03:01.05] Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
[03:07.30] Nem os dentes quase-não-púrpura da menina
[03:11.70] Pense Seurat e pense impressionista
[03:16.08] Essa coisa da luz nos brancos dente e onda
[03:19.89] Mas não pense surrealista que é outra onda
[03:26.53] E ouço as vozes
[03:30.69] Os dois me dizem
[03:34.83] Num duplo som
[03:38.39] Como que sampleados num Sinclavier
[03:44.19] É chegada a hora da reeducação de alguém
[03:52.66] Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
[04:02.30] O certo é louco tomar eletrochoque
[04:09.93] O certo é saber que o certo é certo
[04:18.96] O macho adulto branco sempre no comando
[04:28.08] E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
[04:35.71] Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
[04:44.13] Riscar os índios, nada esperar dos pretos
[04:53.12] E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
[04:59.84] Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
[05:04.04] E entendo o centro do que estão dizendo
[05:08.33] Aquele cara e aquela
[05:14.09] É um desmascaro
[05:18.64] Singelo grito
[05:22.87] "O rei está nu"
[05:25.70] Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu
[05:31.86] E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
[05:39.98] E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo
[05:58.29] Some may like a soft brazilian singer
[06:06.47] But I've given up all attempts at perfection

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